quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Infância em São Paulo nos anos 1990



- Marie! Marie Claire!
A voz saltitava pelo corredor, quase atingindo o teto, e voltava a tocar o solo, resvalando levemente nas paredes. Na tinta branca, pessoas e lugares fabulosos se reservavam para serem olhados por quem passasse, resguardados por belas molduras. A estreiteza do corredor era desafiada pela potência da voz retumbante que desviava toda e qualquer atenção para a atividade do momento: o jogo do tapete.
Se uma perna tocasse o losango acarpetado e a outra tocasse o piso de taco, seria o fim. Cada jogadora deveria posicionar com sabedoria seu pé de maneira a evitar a perda de pontos, a perda da vez, ou mesmo a entrega da vez para a adversária. Quem atingisse o outro lado da sala primeiro, pisando apenas nos losangos dos tapetes, venceria.
As pernas das cadeiras tentavam fazer a sua parte para se preparar para o confronto entre as pernas e os losangos, mas acabavam atrapalhando de qualquer forma. Uma meia de bolinhas brancas e vermelhas se aproximava de um losango, sabendo que tinha a vantagem. A melhor amiga, aquela para todos os momentos e todas as confidências, tentava saltar direto de um losango para outro, a três losangos de distância, um feito arriscadíssimo, segundo os comentaristas do jogo da semana passada. Um pé ameaçou cair fora do losango, mas o equilíbrio venceu. A melhor amiga não decepciona, pensou a dona das bolinhas algodoadas.
Mas ainda havia dois percursos traiçoeiros a conquistar. Em outra tentativa, os cabelos de uma resvalaram no piso, mas logo se apressaram a se posicionar em uma distância segura do solo. Em outro, uma cadeira se adiantava no meio do caminho, e dificultava a manobra, que teve que ser feita na diagonal, mas a melhor amiga conseguiu pisar apenas nos losangos alaranjados.
Era a última tentativa da primeira jogadora. Ela se adiantou, planejou a rota e preparou o salto, calculando possíveis erros de percurso. O ar entrou e rapidamente preencheu a caixa torácica, demorando-se a sair. Houve um arroubo de movimento e, numa lufada veloz de ar, a menina se foi. Por meio losango, a menina perdeu. A melhor amiga de quatro patas miou em comemoração. Um dia ela será humana, pensou a menina, e entenderá a minha dificuldade. Um dia.


*Texto por Fernanda Marques Granato. Texto protegido pela lei de direitos autorais.

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