A neve já havia assentado há algum tempo, e começava a se aproximar das histórias mais sombreadas do local. Ao caminhar por suas ruas, era possível sentir os anos recheados de narrativas passadas de geração em geração aos ouvidos mais atentos. Apenas alguns eram privilegiados com os séculos de conhecimento acumulado. Àqueles que esperavam a água absorver toda a sabedoria local e formar uma solidez digna de publicação seria permitida a estadia.
Havia um banco de madeira esquecido diante de tanta brancura. Era fácil esquecê-lo por empalidecer em comparação com a presença iluminada do branco, ou mesmo perdê-lo em meio a tanta desolação abarcada pela neve. Entretanto, o banco foi utilizado por muitos corpos, docemente por uns, agressivamente por outros. Todas as corporificações que coabitaram o banco haviam completado uma frase desajeitada de alguma forma, com suas pernas protegidas do frio pelas calças de lã, com seus problemas de coluna e com seus respingos de café sempre ensurdecedoramente quentes.
A paisagem nunca seria a mesma. Os feixes da madeira amargavam uma existência fria e solitária na maior parte do tempo, exceto nos raros momentos em que folhas outonais se deixavam deitar em suas farpas pouco apreciadas pelos traseiros que lá descansavam por parcos minutos ou longas horas que se arrastavam pelo horizonte como dois raios de sol na meia luz do despertar da manhã.
A neve derreteria em um dia longo de verão, fazendo a área em volta do banco parecer um lago, e o banco se assemelhar a uma estrutura popular e atrativa. Um dia de verão.
*Escrito por Fernanda Marques Granato.
* Texto protegido pela lei de direitos autorais. Está expressamente proibida a reprodução deste sem a devida autorização da autora por escrito acompanhada da citação nominal da fonte.
**As opiniões expressas nesse post são de total responsabilidade do seu autor.**
Reestreamos a seção Horóscopo, agora baseada em séries e filmes e pra começar escolhemos uma série que fez parte da infância de muitos de nós e que completo 20 anos esse ano: Castelo Rá-Tim-Bum!
E o que aconteceu fora do Castelo, ops, do Caderno?
Outra boa notícia foi que 16 dos ex-moradores da Cracolândia, que fazem parte do programa Braços Abertos da prefeitura de São Paulo, receberam suas carteiras de trabalho das mãos do prefeito Fernando Haddad e agora estão trabalhando formalmente.
Mas como nem tudo são flores, saíram uns números sobre a atuação da PM paulista esse ano e os caras já mataram mais do que no ano passado inteiro e também morreram mais. Seria um indicativo de que o Governo do Estado está, além de exigindo que os policiais sejam mais violentos, expondo-os a maiores riscos?
Esqueci de alguma notícia? Um monte, né? Querem me ajudar?
Então se virem alguma coisa interessante essa semana, pode ser um vídeo, uma imagem, uma notícia ou uma daquelas pesquisas que no fundo dizem o que todo mundo já sabia, mandem pra mim pelo twitter @CadernoemBranco ou pelo e-mail blogcadernoembranco@gmail.com.
Vou ficar esperando, hein? *piscadinha sexy*
"Sai pra lá bicho feio! ¬¬" Depois me perguntam porque gosto tanto de gatos. xD
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Reativando a seção Horóscopo do Caderno com uma ideia bem legal que rolou numa conversa com a Lari Jordan (nova colaboradora e colega de "firma"). A ideia é trabalhar os arquétipos de cada signo em cima de personagens de filmes e séries. Quem também nos ajudará nessa empreitada é o querido Dalleck (que acumula uma dezena de blogs em seu currículo).
Lembrando que nenhum de nós é astrólogo profissional, somos apenas "zodiacuriosos", por isso todas as definições aqui apresentadas são baseadas um pouco nos arquétipos e bastante nos estereótipos de cada signo. Ainda assim esperamos que gostem. :)
E para começar a reestreia da seção escolhemos *suspense*:
Castelo Rá-Tim-Bum
Aviso: Alguns signos solares se repetem mas procuramos acrescentar outros elementos que justifiquem traços peculiares da personalidade de cada um, como Ascendente, Lua, Mercúrio, Marte, etc.
Áries
Típico Ariano (do signo de áries, não confundir com outro tipo de ariano), o Mau é esquentado, nervosinho e gosta de pagar de mauzão. Mas, aí... *risos* aí que o nosso Mau tem Júpiter em Peixes o que enfraquece seu Sol malvadão e o faz sempre terminar ajudando o próximo ao invés de prejudicar. Em compensação, Mau tem Marte em Escorpião e, por isso, ao ser desmascarado por seu amigo Escorpiano com Mercúrio em Touro (logo mais explico essa descrição do Godofredo) ele precisa se vingar dessa terrível traição e dar a sua temida
gargalhada
fatal
Muahuahuahuahua!
Touro
Dr. Victor é o paizão. Tá que ele é tio do Nino, eu sei gente, mas ele tem esse ar de paizão protetor e amigo, totalmente relacionado a Touro. Um Touro é difícil de ser irritado mas quando se irrita... RAIOS E TROVÕES!!! Além disso a Lua em Câncer reforça o fator Família e o Ascendente em Sagitário dá a ele esse ar divertido. Também tem Saturno em Aquário, o que explica seu interesse profissional por invenções e inovações.
Outros personagens taurinos: Biba. Esperta, feminina e decidida♪ E lembram do episódio da menina azul que a Biba fica com ciúmes? Então, ciúmes taurinos.
Gêmeos
Gêmeos é o signo da comunicação, mas também representa a eterna criança sempre com espírito juvenil. Nino, o menino de 300 anos de idade é Geminiano. Possui um lado inventivo o que indica que ele pode vir a seguir a profissão de seu tio com seu interesse por inovação indicando Saturno em Aquário. Outro traço da personalidade de Nino, explicitado no primeiro capítulo da série, é sua ânsia por companhia. O menino se sente sozinho, obviamente porque um geminiano precisa de alguém pra conversar, mas não só isso ele se sente triste por estar sozinho e quem não lida bem com a solidão é Libra. Então Nino tem Sol em Gêmeos, Saturno em Aquário e Lua em Libra.
Outros personagens gemininanos: Zequinha. Curioso, falante, animado, além de ser o mais próximo do Nino. Um geminiano sempre se dá bem com outro.
Câncer
De quantos cancerianos você precisa pra trocar uma lâmpada a gente não sabe, mas conhecemos duas que são irmãs e vivem no lustre do Castelo. Cancerianos gostam do lar, da família e de se divertir. São muito amorosos e animados mas também estão sujeitos a mudanças bruscas de humor. Não lidam bem com conflitos e opiniões divergentes o que explica porque Lana e Lara, as fadinhas irmãs do lustre, se desentendem com certa frequência mas o lado amoroso do caranguejo sempre as leva a reconciliação.
Outros personagens cancerianos: Adelaide, a gralha sempre companheira da bruxa Morgana. Porém a avezinha tem Mercúrio em Gêmeos, por isso sempre tão falante e curiosa.
Leão
Celeste é uma cobra ególatra que quer ser o centro das atenções. E de fato é! Noooossaaaa!!! Ela vive na árvore que fica no centro do Castelo e é muito vaidosa além de gostar de dar seu palpite em tudo e detestar ser ignorada. Sua fala mansa e sedutora não deixam dúvidas de que é uma típica Leonina.
Virgem
Quem sempre chega pra por ordem na bagunça quando as crianças precisam? Penélope! Que além do senso prático tem essa mania de usar sempre a roupa rosa combinando com bolsa, sapato, cabelo... Saturno em Gêmeos dita a sua profissão de comunicadora e seu senso estético, motivo que a levou a conhecer o Castelo, vem provavelmente do Ascendente Libra.
Outros personagens virginianos: O Relógio sempre lembrando que tem hora certa pra tudo, o Gato da biblioteca que sabe de cor onde se encontra cada livro, o Ratinho obcecado por limpeza e pela arrumação da sua pequena toca.
Libra
A bruxa Morgana, de quase 6 mil anos como faz questão de reforçar sua melhor amiga Adelaide (gralha Canceriana com Mercúrio em Gêmeos), sempre tem uma história pra contar com uma lição de moral ao fundo. Se preocupa muito com a educação de seu sobrinho neto Nino e mantém tudo em ordem e equilíbrio no Castelo. Se sente triste quando é incompreendida e rejeitada pelas outras pessoas mas busca sempre um lado bom em tudo. Seu Ascendente em Escorpião explica a admiração das pessoas diante de sua figura e seu interesse pelas artes da magia.
Escorpião
Escorpião é conhecido como o signo que vê o que os outros tentam esconder. E quem aturaria o mala do Mau? Ora, alguém que sabe que ele, no fundo, no fundo, beeeem lá no fundo, tem bom coração e está ansioso para ajudar os outros. O lado fofinho e aparentemente medroso de Godofredo vem do seu Ascendente que é Câncer enquanto sua fala preguiçosa e essa mania de soltar os segredos alheios "sem querer" se deve a posição de Mercúrio na casa do signo de Touro.
Outros personagens escorpianos: O Porteiro. Guarda a entrada para o Castelo, sempre com um enigma a ser respondido. Além disso, alguém sabe da vida do Porteiro? O que ele faz quando não está guardando a porta? Misterioso e reservado, como bom escorpiano.
Sagitário
Bongô é animado, divertido, usa roupas coloridas, gosta de música, dança e PIZZA! Sempre que chega é pra levantar a galera e muitas vezes propõe ideias divertidas pra tirar o pessoal do tédio. Mais sagitariano que isso só se tiver stellium em Sagitário. "E sai da frente, que atrás vem gente!"
Capricórnio
Obcecado pelos negócios (e principalmente pela ideia de construir um prédio de 100 andares) Pompeu Pompílio Pomposo é um típico Capricorniano, mais preocupado com o dinheiro do que com a estética ou valores sentimentais. Sempre tenta conseguir seu objetivo meio na malandragem, ok isso já não é de capricórnio nem de nenhum dos outros terrosos que costumam ser certinhos, isso é culpa de seu Marte em Gêmeos, o signo das muitas faces.
Outros personagens capricornianos: Pedro, quieto e observador. Está sempre atento e quase sempre tem uma observação interessante.
Aquário
Aquário é o diferente, o revolucionário, o preocupado com as questões sociais e ambientais. Caipora é o personagem que representa esse signo. Tem sempre uma história sobre a mata com uma moral de preservação do meio ambiente no final. E esse visual espalhafatoso? Ascendente em Leão.
Outros personagens aquarianos: Zula, a menina azul que caiu de uma nuvem. Muito sensível a rejeição social Zula provavelmente tem Mercúrio em Libra.
Peixes
Totalmente fora desse planeta, assim parece ser a maioria dos piscianos e Etevaldo não é diferente (além de ser literalmente de outro planeta). Perdidão, avoado, ninguém representaria melhor o arquétipo do signo mais sonhador do zodíaco.
E aí? O que acharam?
Deixem um comentário. ;)
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Apesar da obviedade das observações dos
especialistas, o sol aqui era quadrangular tal como uma amarelinha. Pelo menos foi isso
que todas as janelas me segredaram, e eu nunca questionei os seus olhares.
Afinal, olhares são certezas impassíveis de questionamento.
Na rua apenas parcialmente visível,
erapossível vislumbrar um carro
comercial azul petróleo estacionado na calçada. Somente metade do funcionário que
dirigia o furgão era visível, e não era a melhor parte.
Uma mulher corria atordoada em direção a
um prédio sem fundo vestindo um revelador vestido branco por cima de uma
desnecessária calça de moletom dobrada até os joelhos. Realmente era curiosa a
cena que se desvelava ali, pois uma ponta do vestido da jovem havia ficado
presa na boca raivosa de um cachorro que examinava atenciosamente o interior do
furgão e, mesmo assim, a mulher continuava determinada a entrar no edifício,
vestida ou despida, machucada ou livre dos caninos afiados do cachorro.
Uma árvore era permanentemente
entrecortada pela luz do sol, criando intermediários irremediáveis, eternos
companheiros de estadia naquela rua que tudo acatava: a sombra e a luz.
Uma cabine telefônica tinha sido colocada
de frente para uma parede, que bloqueava a porta com seus tijolos,
impossibilitando a entrada. O telefone público tocava insistentemente, sem obter
resposta para seu incessante chamado. Apesar da segunda cabine telefônica estar
acessível, o telefone estava em manutenção. Surpreendentemente, havia uma
pessoa saindo da cabine demonstrando felicidade, talvez por não ter conseguido fazer
uma ligação indesejada.
Dois minutos depois, uma sacola preta se
materializou na mão esquerda do ex-ocupante da cabine. Após devida observação,
a cabine encostada na parede se provou ser o reflexo do mundo visível. Do mundo
inteligível. Já o mundo sensível, ah, esse mundo estará sempre entre o
guarda-chuva que impedia a porta do prédio de colapsar no meio fio e o furgão
guiado por mentes habitantes do futuro próximo.
Eram simplesmente fatos do
mundo ordinário interpretados por um olhar que via cores vivas no preto e branco,
vida no incêndio e morte na bolha de sabão. Olhar do sol da meia noite sempre
viva.
*Escrito por Fernanda Marques Granato.
*Texto protegido pela lei de direitos autorais. É
expressamente proibida a reprodução deste sem a devida autorização da autora
por escrito acompanhada da citação nominal da fonte.
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O ardor cardíaco sempre acompanhou a falta de controle. Nunca soube completar uma frase sem que houvesse a palavra “sofrer” nela antecipada de alguma forma. Nunca soube qual a finalidade de construir um universo inteiro em sonho para, depois de acordada, perdê-lo para sempre e nunca ter a possibilidade de recuperá-lo.
Nada sei sobre a previsibilidade do imprevisto, sei apenas que o fim se encontra com todos no ciclo imutável da vida. A sombra que permite que o reflexo se dirija ao espelho mais próximo nada sabe sobre a sua imutabilidade. Está eternamente condenada a passar toda a sua existência sendo contraposta à luz, sendo visitada por rostos vistos à meia luz por suas caras-metades que nada sabem do dia quando habitam a noite. Nada sabem do ruído por dependerem dele para criar o silêncio por meio da sua negação. É do oposto que nasce a definição, e a inimizade também. De uma coisa sempre tive certeza: o ciclo imutável da vida era composto pela respiração, pela cor que ela exalava e pela exata velocidade que o ar descrevia ao se retirar do íntimo dos clamores e se tornar presença camuflada. Toque do invisível. O fim da rota se aproxima, e não há nada que possamos fazer. Sempre soube que nunca houve ar suficiente para nós dois, mas sempre fui covarde demais para tirar alguém do mundo. Afinal, o amor sempre me prendeu a ele.
O impacto intracardíaco era inevitável, mas a ilusão de controle e a percepção da vida como trajeto construído me levavam a acreditar fortemente na idéia que tinha colocado em mente para reprimir possíveis desesperos caóticos que nos sussurram o futuro. A lataria negra nunca antes íntima dos pormenores do caminho resolveu se deter em algumas questões deixadas em aberto, como uma ferida recém provocada por pensamentos passados insistentes. O obstáculo colocado no caminho foi desprezado veementemente pela mente altamente certa de si e de suas capacidades, e toda a lataria negra brilhante despencou no vazio.
Um ruído de aço fundido recém amigado do concreto raspado tomava conta da ambientação, já que a imaginação dos ocupantes do veículo não pode ser solicitada a tempo. Um rápido contato do negro com o castanho em questão de segundos deu conta do recado: a colisão era inevitável. Como a capacidade elucidativa não participou da criação dos atos em cena, uma névoa perpassava o olhar e a mente daqueles que se encontravam no interior do veículo, fazendo tudo aquilo que rápido sucedia pareceu memória distante compartilhada. Isso pode até ter protegido o ego do impacto por algum tempo, mas a queda foi densa e foi total. Especialmente os egos foram atingidos, e nunca se recuperaram. O dano na lataria foi mínimo. O interior do veículo se assemelhava à um filme de ficção científica: todas as referências foram invertidas, e todos os saberes foram alterados. O cachorro, antes situado confortavelmente no banco traseiro sobre uma toalha amarelada, agora se encontrava em uma fenda entre uma geladeira e uma mala de sapatos. Seus olhos transmitiam o horror da cena. Os dois ocupantes humanos do veículo estavam desacordados e alienados à situação corrente.
Um carro desafiava a orientação do tráfego ao se posicionar na diagonal no meio da estrada. Outro carro situado próximo à cena aparentava tentar auxiliar, apesar de apresentar comportamento um tanto suspeito. A suspensão da situação cotidiana tinha sido completa. O motorista achou por bem partir, por temer não saber como proceder. O mostrador do telefone piscava de dois em dois minutos com o número de emergência, e o pisca alerta continuava enchendo o olhar de todos com ansiedade rubro-negra, mas nada surtia efeito. Nada servia para apaziguar a situação. O telefone chamava, mas ninguém atendia do outro lado. A mão apertava o botão, mas o pisca alerta insistia em se fazer presente. O acelerador respondia à atitude do pé, mas o carro não levava a uma solução, apenas consumia combustível.
Ninguém viria reparar o imprevisto. De nada serviria o treinamento recebido pelos bombeiros ou pelos paramédicos, pois estes estavam atendendo outras chamadas. Chamadas que não ouviriam. De nada adiantaria o serviço prestado pela seguradora, pois vivalma sabia o que havia se passado entre o quilômetro 72 e 70. De nada resolveria chegar no destino e observar os danos visíveis, pois os danos que realmente preocupavam eram os internos e irreversíveis. Abandono. O sentimento de vazio adentrava o interior dos corpos e era sentido por todos os órgãos. O pulmão reunia o ar acumulado e o sangue retesado sem saber como retomar a eficiência anterior. A antecipação do pavor fora tão forte que havia congelado o oxigênio entrando e o gás carbônico saindo, tornando a situação tóxica em um nível inimaginável. O coração também havia sido impedido de remediar a situação e não sabia se um dia voltaria a pulsar. Fome de pesar. Quando o inconsciente se revela, o controle se esvai como a areia em uma peneira, e tudo passa a acontecer a partir das leis do onírico e do ficcional. Esse fenômeno é algo que nem a suspensão da descrença explica. Afinal, o carro cujo freio não funciona mas reduz a velocidade sem motivo aparente ou familiar não se encontra no universo do palpável. Apenas no do possível. O vento ganha força e lança ares de vitória àqueles que o superaram, os invisíveis. Imprevisto é fogo de chuva que não apaga. É morte infinita. É fim revelado. É fome anunciada. É término completo. Acidente.
*Escrito por Fernanda Marques Granato.
*Texto protegido pela lei de direitos autorais. É expressamente
proibida a reprodução deste sem a devida autorização por escrito da autora
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Às vezes, tudo que se quer é sair do mundo sem deixar nenhum rastro, para que ninguém possa segui-lo. Outras vezes, tudo que se deseja é morrer sozinho distante de qualquer som que possa ecoar para que ninguém lamente o seu inesperado fim. Em alguns momentos, tudo que aparenta ser necessário é o contato humano, mas em outros, nada pode ser mais letal que outra mão a tocar-te. Nunca a contradição fora tão importante, e tão desnecessária.
Nunca soube o quanto precisei da solidão, para finalmente encontrar a melhor forma de me livrar dela. Existindo. Só se pode existir a partir do momento em que se reconhece a relação estabelecida com um outro alguém, ainda que desconhecido, distante ou irrelevante. É relevante até certo ponto, mas não a ponto de se tornar algo além do possível. Nunca soube o quanto necessitei da presença do outro, ainda que fosse apenas para me diferenciar e saber identificar do que deveria me afastar. Para identificar um obstáculo, é preciso primeiro conhecê-lo.
Nunca pude realmente compreender a sensação de perda, pois quem eu perdi sempre ocupará um lugar em meu coração, e não tenho mais contato com quem me perdeu. Habitam outros mundos esses seres. Mundos que talvez um dia eu passe a habitar. Ou talvez nunca. Mundos que se dividem entre o ser e o estar, entre o ir e o voltar, entre o abrir e o fechar, entre o conhecer e o ignorar. Nesses lugares, a complexidade está no ar, e eu não respiro. Respirar custa caro. Custa tudo que tenho. Não posso arcar com esse tipo de gasto. Meu inconsciente nunca teve condições. Nem minha insegurança nunca me deixou pular de tão alto cume.
Saberia dizer a palavra certa se tivesse aprendido a ler vozes, mas apenas aprendi a ler palavras, e a vida me mostrou que isso nunca foi suficiente. Nem para o começo da caminhada. Não conhecia nem as pedras que marcariam minhas pegadas. A jornada era indefinida, e não haveria espaço para complementos. A minha individualidade haveria de bastar.
Não merecia a subjetividade que me pagaria com duas gotas cristalizadas para ver o brilho de meu olhar no lago da lua crescente. Não merecia a luz que saía da fogueira e atingia cada folha seca de forma destruidora e definitiva. Não merecia ter a oportunidade de descobrir o porquê de algumas substâncias existirem em três estados. Não merecia saber a razão do som ecoar três vezes em uma caverna. A trindade nunca me inspirou muita confiança.
Talvez um dia descubra o mistério das folhas esvaziadas de sentido.
Personalidade desabitada.
Ninguém responde o chamado. Apenas a porta se abre levemente, respondendo a iniciativa do vento, cedendo à imprevisibilidade da vida no descampado do imaginário fértil de toda criança. A esperança, afinal, subsiste.
Vento de chuva de verão.
Antecipação.
*Escrito por Fernanda Marques Granato.
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As paredes do recinto haviam sido pintadas de várias cores, mas nenhuma tinha sido tão aceita quanto o amarelo. A força do amarelo carregava uma vivacidade pouco vista em outras cores, mesmo na expansão intempestiva do vermelho, que era frequentemente considerada descontrole, sendo assim incapaz de atrair os ocupantes do ambiente com suas mais variadas ramificações.
Apesar da presença inigualável do amarelo, as pessoas que ocupavam o centro do ambiente não pareciam se dar conta de todo o seu magnetismo, e exalavam sua própria força, que era contraposta à abstração colorida do amarelo pela profundidade dos olhares e a serenidade dos sorrisos.
Eram duas pessoas, dois corpos e duas experiências, entretanto a ligação era tão profunda que ultrapassava qualquer limitação que pudesse habitar vagamente o mundo físico. Ia além também de limitações mentais ou mesmo aspirações filosóficas, posicionando-se no reino cardíaco do sentimento, muito além de qualquer análise qualitativa que tentasse reduzir o subjetivo a análises tabeladas de grupos controle.
A relação entre os dois existia fora do espaço, pois não era determinada pelo ambiente, e se colocava fora do tempo por não ser passível de análise cronológica. Não era possível dizer “Eles se conhecem há 24 minutos”, ou “Eles são amigos há 3 anos”, pois a associação não era baseada no conceito de temporalidade nem era afetada por suas inevitáveis transformações. Existia apesar dela. Toda particularizada.
Porém, a especificidade da relação não a fazia única nem incapaz de ser compreendida. Apenas impossível de ser representada com verossimilhança. Afinal, uma representação gráfica pressupõe o espaço, suas dimensões, proporções e perspectiva, e o tempo, congelado na secura da tinta, na impassibilidade do tecido da tela e na limitação da moldura.
O amor deles existia em outra esfera.
*Escrito por Fernanda Marques Granato.
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